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Millena

Calazans

A imperfeição da perfeição: quando a normatização de relações abusivas tornam-se atraentes.

  • Foto do escritor: Millena Calazans
    Millena Calazans
  • 14 de jun. de 2020
  • 7 min de leitura

Atualizado: 21 de jun. de 2020

Vale iniciar esse texto com um tema antigo e que vem ganhando cada vez mais força da oposição à cada dia que passa: o Machismo.


Basicamente, o termo significa que “o sexo masculino é superior ao sexo feminino”, a supremacia masculina. Existem diversas teorias sobre a origem deste comportamento, desde biológicas (como você pode ler aqui, numa entrevista feita com a primatologista alemã, Julia Fischer), passando pelos neandertais, romanos e chegando no que é hoje. E claro, sem contar com aqueles que dizem que isso é loucura das mulheres (ops, gaslighting).


Entretanto, independente da origem, sabemos que esse comportamento é presente não apenas em homens, mas também em muitas mulheres, além de ser naturalizado em muitas ações do dia à dia.



Também sabemos que abusos costumam ser acoplados ao pacote “Machista”. Os índices de violência (física, verbal e sexual, seja doméstica ou não) são cada vez mais gritantes. Em fevereiro de 2019, o Datafolha publicou dados que apontaram que “1,6 milhão de mulheres foram espancadas ou sofreram tentativa de estrangulamento no Brasil, enquanto 22 milhões (37,1%) de brasileiras passaram por algum tipo de assédio. Dentro de casa, a situação não foi necessariamente melhor. Entre os casos de violência, 42% ocorreram no ambiente doméstico. Após sofrer uma violência, mais da metade das mulheres (52%) não denunciou o agressor ou procurou ajuda.” (matéria completa pela BBC).


Fazendo um adentro, estudos também comprovam que devido a pandemia, os casos de violência doméstica cresceram ainda mais. Segundo o estudo conduzido pelo Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA, da sigla em inglês), ”durante as medidas de isolamento, haverá aumento médio de 20% dos casos de violência doméstica em todo o mundo. Isso significa mais de 15 milhões de casos de violência por parceiro íntimo em 2020, a cada três meses de vigência das medidas de isolamento social.”

(Fonte: Agência Senado)


O movimento feminista não é antigo. As mulheres lutam pela igualdade de gênero desde o século XIX, e aos poucos elas foram conquistando alguns direitos. Ainda assim, em pleno século XXI, não são todos os países que garantem 100% de igualdade entre homens e mulheres - em casos extremos, alguns normatizam e legalizam estupros e agressões domésticas.

Claro, a constituição permitir absurdos como esses é extremamente preocupante. Entretanto, a romantização de temas como esses está cada vez mais recorrente, tanto na indústria cinematográfica, quanto na literária.


Neste ano de 2020, a plataforma de sreaming Netflix lançou o filme 365 dias (365 dni). A produção é baseada no primeiro livro da trilogia homonima de Blanka Lipinska, roteirizado e dirigido por Barbara Bialowas.


O longa conta a história de Laura (Anna Maria Sieklucka), uma mulher que viaja para a Itália para comemorar seu aniversário com seu namorado e amigos. No segundo dia de viagem a personagem é sequestrada pelo mafioso local, Massimo Toricelli (Michele Morrone).



A mulher é mantida em cárcere privada até que se apaixonasse por Massimo, tendo um prazo máximo de 365 dias para que isso acontecesse. A personagem provoca sexualmente o mafioso a maior parte do filme, dando a entender que “estava sob o controle”, um "falso empoderamento feminino". Entretanto, para o telespectador, a situação era totalmente inversa. Além do filme retratar à Síndrome de Estocolmo (quando o refém se apaixona pelo sequestrador), é evidente o quão abusivo Massimo é.


Em diversas cenas do filme é perceptível o ciclo abusivo: Massimo obriga Laura a ir à lugares, é pega pelo braço com violência, é acorrentada no avião com dois cintos para evitar a fuga, pega no colo à força, e logo em seguida é “presenteada” com um dia de compras, festas, jantares, viagens, etc. Ou seja, é oferecido algo bom e algo ruim, sucessivamente. O ciclo se repete diversas vezes durante o filme, desestabilizando a vítima e até mesmo quem assiste.


O mafioso restringe o acesso de Laura ao próprio celular e notebook, impedindo-a de se comunicar com a família e amigos. Em diversas cenas do longa, Massimo tem ataques de raiva, enforcando Laura e colocando a culpa nela. Não apenas isso, mas o espectador tem a sensação que a personagem será estuprada à qualquer momento.


Numa cena em especial, o dialogo e, teoricamente, o comportamento, é extremamente inadmissível, mesmo em uma história fictícia. Durante o jantar, Massimo diz à Laura:


  • “Eu quero que você me ensine a ser delicado com você”


Isso é um dos principais alertas de um relacionamento abusivo. Nenhum parceiro deve ensinar o outro à ser delicado, ou gentil, respeitoso ou qualquer outra atitude minimamente obrigatória. A própria pessoa deve fazer isso por si própria, por amor, empatia. Isso é intolerável em qualquer relacionamento! Basicamente, é colocar a responsabilidade do mínimo nas costas daquele quem deve receber esse mínimo.


Além do mais, as cenas de sexo não são tratadas com a delicadeza que deveria. O filme pode ser comparado com um filme pornô gourmet (opinião pessoal), mas não como um filme erótico.


Já em 2015, Cinquenta Tons de Cinza, primeiro filme baseado na trilogia da escritora E. L. James, chegou aos cinemas. Posteriormente, em 2017 e 2018, Cinquenta Tons Mais Escuros e Cinquenta Tons de Liberdade, respectivamente, também estrearam nas telonas.


Ambos, filmes e livros, ganharam o coração de diversas pessoas - principalmente mulheres - pelo mundo.



O primeiro longa apresenta os personagens principais: a estudante de literatura, Anastasia Steele (Dakota Johnson) e o misterioso magnata Christian Grey (Jamie Dornan).

O futuro casal da trama se conhece numa entrevista destinada para o jornal dos alunos da faculdade. E a partir deste momento, Christian se interessa pela estudante como uma potencial submissa à ele. Os encontros começam a ser mais frequentes, planejados pelo magnata.


Depois de alguns dias, Christian conta seu fetiche para Anastasia e entrega um contrato com regras, condições e tudo o que se possa imaginar. O documento dizia, basicamente, que Ana seria propriedade dele e deveria seguir absolutamente tudo o que Christian achasse melhor.


“15.13. A Submissa aceita o Dominante como seu dono e entende que agora é de sua propriedade e que está ao seu dispor quando o Dominante lhe agrade durante a vigência do contrato em geral, mas especialmente nas horas atribuídas e nas horas adicionais acordadas.”



A questão é que a submissão não era apenas sexual, mas constante. Para chamar ainda mais a atenção de Anastasia, Christian presenteou-a com livros raros, notebook de última geração, celular, carro, entre diversas outras coisas. Isso pode ser visto como um tipo de pirotecnia amorosa, mas também como controle excessivo, mesmo que fosse para a “segurança” de Ana.


Entretanto, antes de assinar o contrato, Christian se mostrou autoritário, possessivo e controlador. Mesmo assim, Anastasia seguiu em frente. O magnata proibia Ana de sair com as amigas, controlava o que comia, a quantidade de bebida, entre outras coisas.


Junto as regras, dentro do relacionamento também existiam as punições. Normalmente eram violentas, ligadas ao sadomasoquismo. Mas também poderiam ser psicológicas, como feito no 3º filme.


No segundo e terceiro filme, é perceptível a evolução de ambos os personagens. Ana começa a se empoderar, tornando-se dona de si e tirando aquela imagem de menina ingênua, e Christian, que antes apenas tinha submissas e relações unicamente de dominância, se apaixona por Ana e aprende o que é ter uma vida à dois. Entretanto, os abusos e controles não param.


Em Cinquenta tons mais Escuros, o magnata compra a empresa SPI, editora em que Ana trabalha. Em certa cena, à proibiu de viajar à negócios com o patrão, Jack Hyde (Eric Johnson). Também colocou seguranças para proteger Anastasia a todo e qualquer momento.


Em nenhum momento da trilogia Ana se abriu com seus amigos, nem mesmo com sua mãe em relação ao relacionamento deles, mas quando Christian descobriu que seria pai, em Cinquenta Tons de Liberdade, procurou Elena Lincoln (Kim Basinger), mulher que apresentou o sadomasoquismo para Christian Grey quando ele tinha apenas 15 anos. Essa atitude, além de demasiadamente injusta, visto que estava no contrato que qualquer coisa que acontecesse dentro da intimidade do casal seria confidencial, também mostrou a existência de um senso de direito superior pela parte de Christian.


Todo mundo já teve aquela sensação de ter sido influenciado pelo filme que acabou de assistir, de sair da sala de cinema e colocar um filtro nos olhos e se imaginar dentro da história e, claro, querer que certo personagem fosse seu parceiro ou então o que aconteceu no filme de fato acontecesse de verdade.


Existem diversas pessoas que não enxergaram o quão abusivo Christian Grey é com Anastasia, e que só foram enxergar quando compararam com 365 dias, ou até hoje não enxergaram o abuso em ambos os filmes. E é esse ponto que devemos pensar sobre.


De fato, ambas as trilogias abordam histórias eróticas, com homens dominantes e mocinhas em perigo, tanto que estão sendo comparadas pela crítica e por espectadores. Entretanto, à trilogia de 50 Tons foi mais delicada, tratando a supremacia de Christian diante de Anastasia de forma mais sutil (fato que proporcionou aos fãs o desejo de se relacionar com o personagem). Além disso, a história conta sobre o funcionamento do sadomasoquismo, dominância e submissão, sendo assim, os comportamentos são justificados, mas não necessariamente éticos. Já 365 dias foi gravado de uma maneira muito mais bruta e violenta, não tendo um conteúdo por trás.


A indústria cinematográfica e literária tem um poder muito grande no nosso dia a dia, nos influenciando na maneira de ser, de tomar decisões, de se espelhar. E o problema de filmes que romantizem o abuso é exatamente esse: fazer com que uns aceitem esse tipo de relacionamento, e que outros exerçam esse tipo de atitude para com o parceiro.


Filmes e livros, além de influenciadores, são modeladores de padrões. Certos “padrões” não se encaixam no que é certo, justo e saudável. Por essa razão devemos analisar como os conteúdos atuam nas nossas vidas, mesmo que seja de uma maneira subentendida. Isso é importante para a segurança pessoal.





  1. Em caso de violência doméstica disque 180 (atendimento 24h)

  2. Em caso de violência disque 190 (Polícia Militar - Atendimento 24h)

  3. Para mais endereços e telefones úteis, clique aqui


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