top of page

Millena

Calazans

A Noite de Tempestade

  • Foto do escritor: Millena Calazans
    Millena Calazans
  • 3 de dez. de 2019
  • 2 min de leitura

“Vocês estão proibidos de dar um misero suspiro, ou um de vocês morre.”


O que acontece com um navio quando o mar se agita com a tempestade e o porto está comprometido? Eu descobri nesse dia.


O cano gelado deixou seu corpo esfriar o meu, e a partir dai foram apenas flashs de memórias. Eu sendo puxada por outro homem, uma arma na cabeça dele o fazia assistir cada segundo daquele pesadelo. Eu olhava seus olhos vermelhos de choro e sua boca me pedindo desculpas e implorando para que parassem.


Minha saia estava mais para cima que o normal, o cheiro forte de suor, uma força bruta fazia a dor subir pela pelve, e minhas lágrimas salgavam minha boca. O cano gelado estava no meu pescoço. Então eu cai. Zonza. Sangue escorria pelas minhas pernas, e eu só lembro-me dele gritando por socorro, em prantos, e eu deitada em seus braços. Tudo ficou preto.


Não sei como, mas minha memória tentou me esconder isso por alguns dias, até que toda a cena voltou enquanto eu estava no meu porto. De alguma forma, o jeito que ele me segurou, mesmo que não fosse igual, fez tudo voltar. Então eu paralisei.



“Vocês estão proibidos de dar um misero suspiro, ou um de vocês morre.”



Quando levantei a cabeça, outro homem me puxou de seus braços e me jogou contra a parede. Ele também estava armado. Sussurrava o tempo inteiro: “Se você gritar, ele morre”. Ele também estava refém. Um dos homens o fazia assistir cada segundo daquela cena. A arma estava em seu queixo, forçando-o a olhar para mim. Ele também dizia: “Se você gritar, ela morre.”


Vi que seus olhos estavam vermelhos, e o rosto molhado de lágrimas. Pânico, raiva, culpa... Tudo estava estampado em seu rosto, sua boca balbuciava um pedido de perdão e eu só consegui retribuir com um sorriso de canto, a fim de tentar dizer que estava tudo bem. Mas não estava.


Senti minha saia ser levantada e a calcinha rasgada. Logo em seguida, uma dor aguda como se algo entrasse em mim a força. E era exatamente isso. Uma, duas, três vezes. Cada uma mais aguda. Minhas lágrimas salgavam minha boca, e meu estomago embrulhava com a dor e o cheiro forte de suor. Eu tentava ignorar os gemidos daquele que sentia prazer com a minha dor, e concentrava toda a minha atenção naquele que, pela primeira vez, não pôde fazer nada para me acudir. “Me perdoa” ele sussurrava o tempo todo. Quatro... Cinco... Seis...


Eu perdi a conta quando comecei a perder a consciência. A dor estava lancinante, e os gemidos cada vez mais altos. Então ele me jogou no chão e saiu correndo. Lembro-me das suas mãos me acudindo, ensanguentadas. Ele chorava, me abraçando no chão, pedindo socorro, pedindo perdão, me beijando. E tudo ficou preto.




O navio afunda.

 
 
 

Comentários


bottom of page