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Millena

Calazans

A Ilha

  • Foto do escritor: Millena Calazans
    Millena Calazans
  • 18 de ago. de 2021
  • 2 min de leitura

Por muito tempo admirei a ilha no horizonte. O sol costumava se pôr logo atrás, deixando-a ainda mais radiante, mais atraente. Por todo esse tempo, também me preparei para o grande momento: o dia do embarque. Foram noites sonhando em claro, desejando beber da água dos cocos abundantes, descansar sob a areia fofa à sombra das grandes palmeiras.


Então, ele chegou. Havia estudado o caminho e os pontos de maiores desafios. No geral, era tudo muito tranquilo. Ergui as velas do barco e deixei o vento me levar. Sem perceber, peguei no sono. Não sei te dizer por quanto tempo dormi, entretanto, ainda sonolenta, abri os olhos com os pingos gelados e grossos tocando meu rosto.


O céu estava tão escuro quanto a noite, iluminado apenas com os flashes estridentes. O vento era ensurdecedor. Então, rapidamente abaixei o veleiro para esperar o fim da tempestade. Enquanto desatava uma das cordas, senti uma mão fria e molhada me puxando para o oceano. Tentei me segurar na lateral do barco, mas isso o fez virar de ponta cabeça.


Debaixo da água, uma gritaria sem nexo embalava meus ouvidos. Apenas gritos e mais gritos, como em um estádio com mais de 50 mil pessoas falando ao mesmo tempo. Para piorar, era impossível enxergar qualquer coisa, um imenso breu. Eu apenas sentia ser puxada cada vez mais para as profundezas.


Por um instante, os raios da tempestade conseguiram iluminar o ambiente. Ao olhar para baixo, me vi. Os mesmos olhos escuros, cabelo curto e pele dourada, porém com um tom maquiavélico, como quem deseja destruir qualquer sinal de bondade. Conforme ficava mais fundo, era mais fácil decifrar a gritaria.


- DESISTA!

- VOLTE PARA O CONTINENTE!

- VOCÊ NÃO A MERECE!

Nesse momento, percebi que talvez ela estivesse certa. Já estava sem forças para lutar, e mesmo na hipótese de vencer, não conseguiria voltar à superfície a tempo. Então ela dizia: “Desista e eu a soltarei”. Caso eu não aceitasse, as chances de sobreviver eram mínimas. Se eu aceitasse, a pior das hipóteses era reiniciar a jornada ou me apaixonar por outra ilha.


Parece ser uma decisão óbvia, mas somos ensinados a suportar todos os desafios, a nos obrigar a tolerar circunstâncias as quais nos matam dolorosamente. Isso com a ilusão de um futuro melhor, como se existisse apenas um caminho e caso não o fosse, estaríamos condenados à infelicidade eterna. Será?


“Eu desisto…”


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