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Millena

Calazans

Demônios

  • Foto do escritor: Millena Calazans
    Millena Calazans
  • 15 de set. de 2019
  • 3 min de leitura

Já faz quase uma hora que eu estou sentada nesse chão frio da estação. Já faz quase três horas que eles estão sussurrando em meus ouvidos. E não param... Por mais que eu implore, eles continuam.

"inútil" " fracassada" "todos te odeiam"

Minha mãe já me ligou mais de 10x. Minha melhor amiga já me mandou milhares de mensagens.

"Pule. Pule. Pule. Pule" eles sussurram em uníssono quando o metrô se aproxima.

Agora ele está ligando... Como isso chegou até ele? Ameacei pegar o celular e atendê-lo, mas me impediram.

Estação de Metrô

"É sério que você ainda acredita nisso? Olhe para você!" "Você não é nada... Quem se importa?"

— Por favor.... Parem. — Ficava difícil implorar com um nó imenso na garganta. Ainda mais difícil quando não é uma pessoa quem diz.

"Fraca!" "Pule. Pule. Pule. Pule!" "Acabe conosco! Pule!"

Senti alguém se aproximar. Levantei a cabeça e havia um senhor, tinha por volta de uns 70 anos. Estava todo de branco, e uma sandália, mesmo no frio. Ele sorriu pra mim, e com muito esforço sentou-se no chão ao meu lado.

— Qual é o nome deles? — Olhei confusa para ele enquanto secava as lágrimas com a manga do moletom.

— Desculpe-me, senhor. Mas de quem o senhor está falando?

— Escutei a senhorita dizer para pararem... Quem?

— Ah... Sim. Não é ninguém. Fiquei tranquilo!

"Hahaha você realmente vai confiar nas palavras de um estranho?" "Olha só, passando vergonha."

— Está mentindo...

— É apenas meus pensamentos. Fique tranquilo. — Ele se inclinou para mais perto e olhou no fundo dos meus olhos. Ao contrário dos meus, seus olhos eram tão azuis quanto o céu, um azul de hipnotizar qualquer um.

— Não são apenas seus pensamentos. Eu posso vê-los te atormentando. — Fiquei encarando-o por um tempo, quem era ele.

"Não acredite no que esse velho diz."

— Desculpe, Senhor, mas quem é você?

— Meu nome não importa, menina. Deixe disso. O que importa é que você seja mais forte que eles.

— Eles, quem?

— Seus demônios. — Pisquei algumas vezes, aquilo não era real. — Seus olhos os entregam. Está tudo muito escuro.

— Meus olhos são castanhos...

— Não digo no sentido denotativo. Eu posso ver sua alma também. Como você aguenta ficar assim, por tanto tempo?

— Assim como?

— Você está se afogando em si, está lutando consigo mesma. Pare de gastar energia com isso, lute contra eles. É possível ver o quão está assustada, não só com eles, mas comigo também. Não precisa ter medo de mim. Já nos conhecemos...

— Não nos conhecemos, não.

— Um dia você entenderá. No momento, eu peço que Deus lhe abençoe e te proteja de todos eles que estão te atormentando. Tenha fé, menina... Em breve você não escutará eles. — ele secou a lágrima que escorreu pelo meu rosto e sorriu. — Agora a senhorita poderia me ajudar a levantar? A idade chega para todos!

Me levantei e com cuidado o ajudei a ficar de pé novamente. Ele me abraçou, um abraço forte, mas reconfortante.

— Acho que estão te procurando... — o senhor apontou para trás.

Quando me virei, minha melhor amiga e ele estavam la. Parados... Com o ar de alívio. Primeiro ela veio me abraçar, soluçando de tanto chorar, depois ele veio... Me abraçou forte por muito tempo e sussurrou em meu ouvido.

— Estava preocupado com você... — Então me apertou mais forte.

Depois que minha melhor amiga se acalmou, conseguiu falar:

— Com quem você estava falando?

— Com um senhor...

— Não tinha ninguém...

— Lógico que tinha. — Olhei para trás, ele estava embarcando em um vagão mais distante. Ele piscou, entrou e sumiu.

 
 
 

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