
Esquinas da vida
- Millena Calazans
- 27 de abr. de 2020
- 3 min de leitura
Existem muitas esquinas que marcam nossas vidas. Elas podem ser reais ou metafóricas, ambas presentes na história de qualquer um, seja por um beijo, por um assalto, um ponto de referência, um encontro ou início de uma longa história. Na minha vida, três são muito marcantes, que representam diferentes momentos.
Momentos de terror.
O metrô estava saindo da estação São Joaquim, quando eles começaram a gritar (com o tempo eu me acostumei, mas naquela noite foi a primeira vez). O rosto das pessoas ao lado estavam serenos, como nada estivesse acontecendo. Então comecei a sentir a dor de um coração com os batimentos acelerados, mãos e pernas começaram a tremer, e o ar de dentro do vagão parecia insuficiente, e ao mesmo tempo, meu pulmão não parecia funcionar como deveria.
Aumentei o volume dos fones de ouvido, na tentativa de abafar o que eles falavam na minha cabeça. Em vão. Assim que as portas se abriram, sai correndo, estava aterrorizada, sem saber o motivo, só sabia que tinha que correr, sair dali o mais rápido possível. Uma sensação de que eu seria morta à qualquer momento crescia no peito, e quanto mais eu corria, mais essa sensação crescia, mais parecia que alguém estava correndo atrás de mim.
A lembrança e auditiva e tátil. Tudo é um borrão, inclusive quando eu quase morri de fato. Apenas o grito “PARA!”, com uma mão segurando meu ombro e a buzina do carro são bem nítidas. Não lembro se eu parei, se eu continuei, ou o que aconteceu. Tudo começa a clarear no momento que meu professor responde a minha pergunta:
“Como controlar uma crise de pânico?”
Momentos de esperança.
Por muito tempo eu pensei que ficaríamos juntos pelo resto da vida. Te coloquei em primeiro lugar em poucos dias depois de te conhecer, e claro, você adorou. Você me prometeu o mundo no nosso primeiro beijo, e eu acreditei por dois anos.
Não posso te culpar, você me deu todas as dicas e fichas, e eu as ignorei. Acreditar na minha paranoia era muito mais confortável, apesar de dolorido à cada frase que você enviava.
Com isso, e mais muitos estresses da época, vieram as crises de pânico, a ansiedade, a anorexia, a insônia. E eu me perdi de mim mesma. O que me guiavam eram apenas os estudos. Foram textos e textos sobre você e para você, lágrimas atrás de lágrimas.
Dois anos depois de nos conhecermos, o dia do nosso último encontro chegou. Não estava nos planos te encontrar naquele dia, por dentro eu não queria pelo simples fato de você me desestabilizar todas as vezes que nossos olhares se cruzam. Mas ao mesmo tempo eu sabia que aquele seria o nosso adeus, a última página. E realmente foi.
O último abraço. Você foi para um lado e eu fui para o outro.
Momentos de luz.
Fazia apenas três dias desde quando eu tinha saído da casa dos meus pais. O coração ainda estava sensível. Os olhos marejados estavam presente nas minhas feições. Mas você conseguiu me tirar de casa por alguns instantes.
Eu sabia o que você queria, era bem mais que nítido, e o bloco de carnaval era só mais uma desculpa para você completar a missão. Saímos da aula e fomos para o centro. Você me mostrou um pouco da cidade, pelo menos o que estava aos arredores. Fomos no Green’s, e descobri que você era o mineiro mais fajuto de todo o estado de Minas Gerais por não gostar de queijo.
Então fomos para a concentração do Bloco. Tudo ainda era muito novo, e para piorar, meu sentimento de repulsa, por querer passar o carnaval na minha cidade, deixou o bloco ainda mais sem graça. Apesar disso, continuei tentando me socializar o máximo possível.
Bloco anda, bloco para. Música vem, música vai. Paramos em frente à estátua do soldado, na esquina da Oito de Dezembro, com outra rua que eu não tenho ideia do nome. Não lembro exatamente o que me fez te abraçar, mas eu fiz isso. Aquele abraço de lado, como quem não quer nada. Também não lembro o motivo de ter olhado para cima naquele momento, mas olhei. E nos beijamos. Talvez o destino tenha colaborado na surdina, ou então o soldado tenha nos abençoado sem a nossa ciência.
Voltamos a acompanhar o bloco e a multidão, então à chuva começou, assim como o meu abraço, como quem não quer nada. Nossas mão ficaram juntas para não nos perdermos um do outro. Quando chegamos na avenida principal da cidade, a água caia com força. Deixei minha ingenuidade e espírito clichê falarem mais alto:
“Realiza um sonho meu?”
E você realizou, não só naquela noite, mas em todos os outros dias desde o carnaval de 2019.




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